COMUNICANDO: 17 de março: 25 anos do fim do apartheid por Luciana Gomides

Bairros e monumentos sul-africanos que simbolizam uma das mais tristes passagens da história da humanidade

Há exatos 25 anos, um referendo oficializava um longo e triste capítulo da história sul-africana, o apartheid. O regime segregacionista implantado em 1948 pelos governos do Partido Nacional (liderado pela minoria branca) dividia os habitantes em grupos raciais entre negros, brancos, indianos e “de cor”. Essa separação era refletida nas áreas residenciais, saúde, educação, política e serviços públicos sendo que, à maioria negra da população, era fornecido atendimento de qualidade inferior ao que era prestado aos brancos.

Ao longo de 44 anos, o regime trouxe consigo uma horda intensos conflitos, movimentos de resistência, além do embargo comercial contra a África do Sul. Durante esse período, locais e pessoas materializaram a luta pelo fim do apartheid, como Nelson Mandela, preso por 27 anos na Ilha de Robben, o bairro de Soweto, além, claro, das próprias construções em que a separação entre negros e brancos era visível. Listamos, aqui, paradas obrigatórias para quem quer conhecer um pouco dessa história.

Soweto

No período do apartheid, foram criadas as townships, uma espécie de cidades satélites ao redor de Johanesburgo com o intuito de manter afastada a população negra. Uma delas era Soweto, onde viveram dois Prêmios Nobel da Paz: Desmond Tutu e Nelson Mandela (a casa dele, inclusive, é aberta a visitações). Durante o regime, Soweto foi palco manifestações e protestos, sendo o episódio mais sangrento o Levante de Soweto, quando houve a repressão violenta a 20 mil estudantes que lutavam contra a inferioridade das escolas para negros.

Além das péssimas condições escolares, com prédios superlotados oferecendo ensino precário, o governo ainda submeteu os negros à proibição de sua língua oficial, instituindo a obrigatoriedade do africâner, idioma oficial e símbolo do apartheid.  Em verdade, a manifestação seguia pacifica, até a intervenção policial, causando a morte de, segundo estimativas, 700 estudantes. Dentre eles, estava o jovem Hector Pieterson, de apenas 13 anos, que se tornou símbolo do massacre e a quem, inclusive, foi levantado um memorial.

 

Constitution Hill

Foi construído sobre o antigo Old Fort Prision Complex, Number Four. Baseia-se que, diariamente, cerca de 2.000 negros sul-africanos davam entrada no prédio, basicamente por atitudes tidas como subversivas, ou seja, a luta contra o regime. Os prisioneiros eram submetidos à violência e humilhações, como celas superlotadas, agressões físicas, mulheres sendo obrigadas a se desfazer de suas roupas, além da chamada Tauza Dance, ritual altamente humilhante.

Ícones na luta a favor dos direitos humanos, como Nelson Mandela e Desmond Tutu passaram por ali. Atualmente, representa a democracia e liberdade abrigando, desde 1995, a nova sede do Tribunal Constitucional. Ao visitar o local, é possível conhecer o museu e exposições em que são retratados, além de arte, os horrores daquele período, mostrando as tentativas reais de um país em superar as atrocidades nele cometidas.  Também são oferecidas visitas guiadas, como The Mandela Cell e The Women’s Jail.

 

– Robben Island

Localizada na entrada de Table Bay, a meia hora da Cidade do Cabo, serviu como local de confinamento de leprosos e escravos até tornar-se prisão de segurança máxima em 1961, recebendo ativistas políticos contra o regime segregacionista. Ficou mais conhecida por ser a prisão onde Nelson Mandela ficou enclausurado em uma cela de, aproximadamente, 4m2, por 18 anos. O futuro presidente da África do Sul e Prêmio Nobel da paz permaneceu isolado do mundo, pois, havia o temor de que ele tramasse algo contra o governo de dentro da cadeia.

Classificada como Patrimônio Mundial da Humanidade em 1999, a ilha abriga o Robben Island Museum, que   retrata as dolorosas passagens do apartheid. As visitas são guiadas, nas quais é explicado o funcionamento da ilha naquele período. Um detalhe importante: o tour interno é feito por ex-presidiários (a ilha recebeu prisioneiros até seu fechamento, em 1996), ou seja, o visitante recebe detalhes de quem realmente viveu ali dentro. Ao todo, são  três horas de visitação.

 

District Six

Também na Cidade do Cabo está o District Six, antigo reduto de artesãos, imigrantes, trabalhadores e ex-escravos. A região era considerada a alma de Cape Town até que, em 1966, o bairro foi nomeado como exclusivamente branco, obrigando que 60 mil moradores fossem expulsos de suas residências. Além da atrocidade de serem desabrigados, os antigos moradores tiveram suas casas demolidas  foram, forçadamente, levados para as townships, áreas periféricas das cidades maiores.

O terreno ficou, praticamente, abandonado até os dias de hoje. No entanto, abriga um memorial, o District Six Museum, inaugurado em 1994 para relembrar o período do apartheid. O acervo está guardado em uma antiga igreja onde, inclusive, congregavam o moradores expropriados e inclui jornais, brinquedos, fotografias, móveis, instrumentos de trabalho e outros resquícios físicos da região.

– Museu do Apartheid

Retrato marcante do que foi o apartheid, conta sua história de forma interativa e didática (como grande parte dos museus instalados em grandes capitais). Foi inaugurado em 2001, construído em formato, arquitetura e decoração que remetem ao regime de opressão que retrata. O impacto causado pelo museu é grande. Para que o visitante sinta o que era, realmente, fazer parte daquele período, os ingressos são distribuídos como antigamente, indicado em qual porta deve-se entrar no museu.

Porque, afinal, quando traduzido do africâner, apartheid significa justamente isso, “vidas separadas”. O acervo inclui objetos, fotos, filmes, documentos, entrevistas, filmes, além de narrações que nos fazem duvidar da sanidade mental do ser humano ao tomar consciência de que tantas atrocidades foram cometidas. Assuntos e épocas são divididos por setores, contando fatos como o massacre de Shaperville, a vida nas minas, o Acordo Nacional de Paz e a libertação de Mandela.

luciana gomides

 

Post Autor: Comunicando

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