9Gk0a08l
“A primeira página que você não vê no jornal que você lê”. A breve descrição define o projeto ACAPA, desenvolvido por jornalistas que decidiram apostar numa espécie de “jornal sem jornal”. Nele, não há páginas ou editorias, apenas uma única peça, surgida da síntese dos fatos. As criações são publicadas em uma página no Facebook que em um mês reuniu cinco mil seguidores.

“ACAPA se vale da linguagem de primeiras páginas desenvolvida por jornais e revistas. Logo, a verdade é que o jornal sem jornal tem muita inspiração na riqueza do jornal”, diz o jornalista Edgar Gonçalves Jr., idealizador do projeto.
Gonçalves conta que sempre foi apaixonado pela linguagem da primeira página. Para ele, a capa traduz a criatividade, a sensibilidade e a coragem na edição de um jornal. A ideia ganhou forma depois que ele deixou o Grupo RBS, após 15 anos como editor-chefe em Santa Catarina.
“Imaginei montar uma estrutura para oferecer a jornais primeiras páginas a distância como uma prestação de serviço. Após algumas tentativas frustradas, pensei: por que não produzir a capa de um jornal imaginário, já que o noticiário está aí mais vivo e forte do que nunca? Foi aí que nasceu o ‘jornal sem jornal’”, relata.
O segundo passo, considerado o mais desafiador para o jornalista, foi convidar colegas de ofício que também compartilhassem a mesma paixão. O grupo formado por sete jornalistas está espalhado pelo sul, sudeste e centro-oeste. Todos com experiência e prêmios de primeira página. Fazem parte da equipe Renata Maneschy, de São Paulo, Fabrício Cardoso, de Goiânia, Nélson Nunes, na ponte aérea entre São Paulo e Goiânia, Cláudio Duarte, de Florianópoles, assim como o idealizador, Fábio Nienow, de Brasília e Evandro de Assis, de Blumenau.
As reuniões de brainstorm são feitas via Messenger ou WhatsApp. Com o trabalho de modo voluntário, o processo criativo não segue um planejamento. “Nem sempre os momentos livres coincidem. Às vezes temos uma ideia de texto, mas falta ilustração – e vice-versa. Em geral, ficamos de olho no que está acontecendo e em permanente contato”, explica Gonçalves.
Capas e mais Capas
Desde 29 de março, quando foi publicada a primeira, até o momento, foram 72 capas produzidas. A equipe procurar fazer pelo menos uma por dia, mas não há rigidez nas demandas. Vez ou outra, criam mais de uma. Aos domingos, os jornalistas costumam postar as cinco mais compartilhadas da semana. Além da disponibilidade dos integrantes, a criação também depende do noticiário.
“É bem verdade que o país tem produzido notícias geradoras de capas em tamanha abundância que não conseguimos dar conta. A política brasileira é a mais fértil do mundo em drama e comédia. Nem Capitu seria capaz de tanta dissimulação”, pondera o idealizador. Ele observa que quanto mais rápido publicam uma capa sobre um assunto de repercussão, maior é o alcance. O dia em que o WhatsApp saiu do ar por ordem judicial, ACAPA foi produzida em minutos e alcançou mais de 135 mil pessoas.
Embora os profissionais acumulem experiência na produção de primeiras páginas, o projeto os surpreende pelo alto impacto e pela identificação imediata com o leitor. “Percebemos, por exemplo, que mensagens nesse formato visual e direto podem extrapolar as fronteiras do jornalismo tradicional […] Uma capa recente, na qual atacamos a cultura do estupro, teve enorme repercussão. Estamos atentos a essas potencialidades”.
O sucesso do projeto também levantou questionamentos de internautas. Alguns disseram não se tratar de jornalismo, que há elementos de publicidade ou aparenta ser arte contemporânea. Outros tentam rotular inclinações políticas e ideológicas, aspectos que não foram levados em consideração pelo idealizador para montar a equipe.
“Se uma capa sai com o viés X ou Y, é o resultado do processo criativo, onde ocorre o enfrentamento das nossas visões de mundo. E o objetivo não é a busca do consenso, já que um fato pode inspirar várias capas”, esclarece.
A interação dos usuários é maior do que o time imaginava. Segundo Gonçalves, concorde ou discorde, o leitor sempre manifesta sua opinião sobre os temas. Para ele, essa é a mais valiosa colaboração, uma vez que contribui para analisar “a temperatura” de cada capa. Os jornalistas também recebem colaborações espontâneas, como ilustrações. A iniciativa faz os profissionais pensarem em publicar a capa dos leitores no futuro. “É mais uma vantagem de um jornal sem jornal”.
Vencedor do Esso de Primeira Página em 2010, o jornalista deixa uma reflexão sobre o modo tradicional de produzir jornal. “É de se perguntar: por que jornais com jornal não publicam múltiplas capas ao longo do dia? Com a velocidade da internet e das redes sociais, limitar-se a uma lógica industrial de fechamento ajuda a explicar o declínio de veículos impressos”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *